21
set
09

Enfeitiçados novamente por John Updike

por Scott Timberg

Começou como uma sátira sombria do final dos anos 60 e sua época de moralidade mudando, então se tornou um grande sow de horrores dos anos 80 com os cabelões das atrizes e dominado por efeitos especiais e as sobrancelhas de Jack Nicholson. E agora, está em seu caminho de entrar no mundo de novo como um programa de televisão descontraído, criado na primeira década do século 21, sobre a amizade entre mulheres e destinado ao público de Desperate Housewives. (E é mesmo gravado na praça da antiga cidade de Gilmore Girls).

Isso é uma sobrevida muito rica para um romance considerada uma anomalia por seu próprio seu autor e um clássico misógino. Mas há algo sobre As Bruxas de Eastwick de John Updike que leva as pessoas a voltarem a ele. (Mesmo Updike retornou ao cenário e personagens no ano passado com As Viúvas de Eastwick, uma das últimas obras do autor falecido.)

Para a produtora executiva de Eastwick, Maggie Friedman, a adaptação é natural e não apenas por causa do fascínio contemporâneo com a bruxaria, que fornece grande parte da sua conexão pessoal. “Homens e mulheres e sexo são uma grande parte do show”, diz Friedman, da série estrelada por Lindsay Price, Jaime Ray Newman, Rebecca Romijn e Paul Gross, que estreia 23 de setembro às 10 da noite na ABC. “E há sempre um grande interesse nisso.”

O romance – sobre uma confraria de mulheres divorciadas em uma vila à beira-mar de Rhode Island e o cara rico e diabólico que se muda para a cidade e cativa todas as três – tem sido chamada da novela mais raivosa e violenta do autor, e de “Updike sem sapatos.” “Em muitas maneiras, não é característica dele”, diz Sam Cohen, professor de literatura contemporânea na Universidade de Missouri. “Não apenas não é um de seus melhores romances, mas não um dos típicos, também.”

Quentin Miller da Universidade de Suffolk, um dos raros estudioso que o considera entre os principais romances de Updike, no entanto, diz que que Bruxas parece uma escolha improvável para uma adaptação televisiva. “Ela teria que se afastar muito da visão de Updike para trabalhar”, diz. Miller, autor de John Updike e a Guerra Fria, chama a novela de “o livro mais sombrio do escritor”.

“E seus livros são incrivelmente cheios de camadas, muito complicados – as conversas são ponteadas por filosofia e teologia. E a televisão não é famosa por capturar esse tipo de complicação.”

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Updike em horário nobre

Quando As Bruxas de Eastwick foi lançado, em Abril de 1984, “Updike estava um pouco esquecido no imaginário popular”, diz Miller. Mas ele ainda estava no auge de sua carreira: Rabbit está rico tinha sido lançado em 81, e Rabbit descansa apareceria em 1990, ambos romances ganhadores de prêmios Pulitzer. Críticas, em geral, foram boas: Margaret Atwood, no New York Times Book Review, elogiou Bruxas pela “habilidade e criatividade da escrita”, bem como a forma como as bruxas encarnavam a vida de fantasia da América.

O influente crítico literário Harold Bloom – que notoriamente chamou Updike de “um romancista menor com um estilo de grandes proporções” – mudou de idéia com esse romance. Ainda assim, hoje, a novela não recebe tantas resenhas ou estudos no meio acadêmico: Aa quatro eras abrangendo romances sobre Rabbit Angstrom e, provavelmente, os contos de Updike, são geralmente considerados os melhores e mais estudados de sua obra.

E, embora o romance típico de Updike tenha alguns personagens se apaixonando e desapaixonando em um vilarejo da Nova Inglaterra, Bruxas parece superficial, mas por outro lado quebra um padrão. O desenvolvimento da trama sobrenatural – que alguns viram como derivado do realismo mágico de Gabriel García Márquez – foi um movimento estranho de um romancista que fez seu nome com um realismo doméstico minuciosamente observado que ele adotou mesmo depois que isso se tornou fora de moda. 

Esta partida do realismo faz do romance um híbrido estranho, diz Cohen. “A magia em Updike veio de seus escritos sobre o cotidiano, como ele o transformou em algo transcendente ou maravilhosamente esclarecedor.”

O romance também foi uma partida de outra maneira: o crítico William Pritchard, em seu livro Updike: Man of America’s Letters, ficou chocado pelas atípicas “violência, morte e sofrimento extremo”, chamando-o de “romance mais pernicioso de Updike” e “o mais cruel livro que ele produziu.”

O filme de 1987, e estrelado por Nicholson, Susan Sarandon, Michelle Pfeiffer e Cher, levou a violência e os eventos sobrenaturais além. Encabeçado pelo diretor George Miller de Mad Max, o filme ganhou muito dinheiro e misturou opiniões – alguns achearam bobo e longo. Embora tenha trazido renovada atenção para Updike, o filme não foi universalmente admirado por fãs do romance, em parte por suas muitas mudanças na história. O próprio Updike disse que o filme “tornou-se um filme de Nicholson e dissolveu-se em efeitos especiais.”

“Talvez”, disse Updike após a publicação do romance, “meus personagens femininos tenham sido muito doméstico, muito adoráveis, muito do que os homens desejam que fossem.” Para um escritor que tinha sido acusado de não descrever mulheres, então, esta foi uma novela “sobre o poder feminino, um poder que as sociedades patriarcais têm negado.”

Apropriadamente, muita da atenção que o livro tem recebido – tanto pró e contra – vem de sua política sexual. Cohen vai tão longe a ponto de chamar o romance de um teste de Rorschach: muitos dos estudiosos que gostaram o viam como um engajamento inteligente com o feminismo, e um caso raro de um romancista masculino escrevendo a partir de pontos de vista das mulheres. Detratores viram como o objetivo de ridicularizar a idéia de mulheres poderosas.

Atualmente, Cohen e outros vêem o romance como um ataque contra o feminismo e as suas reivindicações. “Updike leva essas mulheres supostamente poderosas, torna-as bruxas, e as faz se apaixonarem pelo mesmo homem – que por acaso é o diabo”, diz ele. “É difícil ver isso como bom.”

O romance, ambientado durante a Guerra do Vietnã, também parece zombar da “irmandade ” e a idéia de que o poder feminino é mais benigno do que o dos homens, uma vez que as bruxas rapidamente tornar-se rancorosas e violentas. “Porquê no livro a tendência feminista transforma mulheres poderosas em bruxas que enlouquecem e começar a matar pessoas?” pergunta Cohen.

Friedman, a produtora executiva, sabe que o livro é considerado notoriamente machista em alguns lugares. “A novela tem lugar no final dos anos 60”, diz ela, “e é sobre a convulsão social da época, quando os papéis das mulheres estavam sendo redefinidos, e alguns papéis tradicionais não sobreviveram.” De qualquer maneira, “O livro de idéias sobre as mulheres e os costumes sociais não são o as que o show mostra.” E não apenas o cenário, mas a trama precisava mudar: Para um programa que pode durar cinco anos ou mais, ela disse, “você não pode ter três mulheres que dormem com o mesma cara. Precisávamos de um mundo maior.”

Alterações para a TV

Um elemento temático que permanece apenas insinuado na novela mostra o quanto o programa de TV irá se afastar da cosmovisão Updike. As bruxas da novela são todas as mães, mas você tem que olhar de perto para ver os seus filhos: eles quase não aparecem, e as mulheres não parecem muito preocupados com eles.

Este esquecimento tem sido visto como parte da crítica de Updike ao feminismo e sua visão de toda a cultura liberal dos anos 60 e 70 como sendo baseada no egoísmo, mesmo narcisismo, uma fuga da responsabilidade por prazeres momentâneos. Na verdade, os críticos interpretam a conclusão violenta do romance como um acerto de contas com a cultura “pecadora” e os valores.

Mas o primeiro episódio de Eastwick mostra uma das bruxas que vem para o resgate de sua filha, que Friedman diz que vai se tornar uma parte importante do show. Isso pode fazer com que a série funcione melhor – isso a abre até para mais personagens, por exemplo – mas trai um dos temas de Updike.

“Algo consistente sobre a obra de Updike,” diz Miller, “é que as crianças ficam negligenciadas enquanto os pais estão a ter relações sexuais com o outro, satisfazendo seus impulsos”. David Foster Wallace escreveu em seu famoso ataque a Updike que “os jovens adultos educados dos anos 90″ foram obviamente, os filhos das mesmas apaixonadas infidelidades e divórcios que o Sr. Updike descreveu tão belamente”.

Updike – às vezes chamado de o Nobel do adultério suburbano – passou toda a sua carreira falando sobre o fim do casamento e da família, e essa foi uma tensão nunca resolvida. Miller chama a essa uma questão que o autor viu como “lamentável, mas inevitável”, em uma cultura dedicada ao prazer e ao individualismo.

Tudo em tudo, então, neste romance sobre o diabo, moral e pecado – o egoísmo, o narcisismo, a indulgência da individualidade – muda drasticamente em seu caminho para a tela da TV. Para Friedman, as exigências de um programa projetado para múltiplas temporadas são muito diferentes das de um romance ou um filme, e o leva para fora de qualquer período histórico específico. “Eu acho que o que é atraente”, diz , “é a idéia de que todas as mulheres têm uma fantasia sobre ser uma bruxa, e a idéia dessa pessoa misteriosa que vem pode ou não ser boa. Isso funciona a qualquer momento.”


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